CAUSAS E MECANISMOS DA OBSESSÃO

Emmanuel disse que “a obsessão é o pior flagelo deste século”. De fato, as conquistas da tecnologia atual são tantas, que o apelo material a mente humana e também muito forte. Somos estimulados a obter valores materiais e a concorrer com as pessoas, para que cada vez mais tenhamos “coisas” e galguemos condições sociais que nos confiram prestigio e poder. Assim, muitas vezes acabamos por deixar em segundo plano, ou mesmo totalmente de lado, a questão da fraternidade, da caridade, do convívio amistoso, sobrevindo, então, as oportunidades de instalação do processo obsessivo.

O Espírito de Verdade nos orienta: “Espíritas, amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instrui-vos, eis o segundo. Representando esses dois ensinamentos como as asas de um passaro, concluímos que ele somente poderá altar o seu vôo se elas estiverem igualmente desenvolvidas. Entretanto na condição evolutiva em que nos situamos atualmente, temos a asa do conhecimento (da razão) relativamente muito mais desenvolvida, se comparada á asa da moralidade (do sentimento). Conseqüentemente, não sabemos ainda planejar e executar nossas ações em direção ao bem de tudo e de todos, do que resultam males dos quais, conforme se refere Emmanuel, a obsessão e o pior deles.

Orgulho, vaidade, ódio, uso impróprio do poder, atos de desamor, inveja do bem, covardia moral, sede de vingança, aviltamento do sexo, vícios de conduta e distorção de compromissos afetivos são apenas alguns dos males morais que podemos oferecer como antenas aos nosso obsessores para a instalação de um processo obsessivo.

Talvez, pudéssemos reunir todas as causas em uma só palavra: egoísmo. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Kardec, lemos que “o egoísmo, filho do orgulho, é a fonte de todas as misérias terrenas (…) o maior obstáculo à felicidade do homem (…) é, coragem (…) Expulsai o egoísmo da Terra para que ela possa elevar-se na escalada dos mundos, pois já é tempo de a humanidade vestir a sua toga viril, e para isso é necessário primeiro expulsá-lo de vosso coração”.

Mas, voltemos à consideração dos males morais, que destacamos anteriormente. Os males morais têm como base a nossa imperfeição e o mal uso de nosso livre-arbítrio, isto é, de nossa livre vontade, de nossa decisão. Chico Xavier já referiu que “somos livres para decidir sobre o nossos atos, muito embora nos tornemos escravos de suas conseqüências”.

Em O Livro dos Médiuns, questão 252, Kardec assevera que as imperfeições do obsedado são freqüentemente um obstáculo à sua libertação, discorrendo sobre notável exemplo que pode servir para a instrução de todos, conforme as suas próprias palavras. Trata-se do caso de duas senhoras irmãs, que, há anos, sofriam estranhas depredações em sua casa. O espírito responsável, uma vez evocado, mostrou-se de grande perversidade e inacessível aos bons sentimentos. A prece, porém, parecia exercer sobre ela uma boa influencia. Mas, após algum tempo, as depredações recomeçavam. Os conselhos dados por um espírito superior recomendaram, ás irmãs, que contivessem a língua, pela qual fizeram muito mal uso, inclusive, em épocas passadas a esse seu obsessor de agora. Se melhorarem, seus anjos de guarda voltarão para elas e a sua presença será suficiente para afastar o espírito obsessor.

MECANISMOS DA OBSESSÃO

Na análise do mecanismo intrínseco do processo obsessivo não podemos esquecer o pré-requisito de dois fatores muito importantes: afinidade e sintonia ou paridade de freqüência, conforme esclarece André Luiz em Mecanismos da Mediunidade. O pensamento e o sentimento são formas de energia eletromagnética. Na mente humana, essas duas forças estão atuando tanto em nível consciente quanto inconsciente, sendo a intenção o gatilho que aciona a transmissão dessas energias para o alvo que se deseja (consciente ou inconscientemente). Assim, uma idéia emitida por uma entidade obsessiva termina por fixar-se na mente de outra entidade, encarnada ou desencarnada, se houver afinidade (de pensamento ou sentimento) entre elas. Dizemos então que se estabelece um “circuito mental” (ou mediúnico) entre as duas mentes.

André Luiz, em Mecanismos da Mediunidade, explica a ocorrência do circuito elétrico. Assim, diz ele, se aproximarmos um corpo eletrizado (por exemplo, urna bota de metal) de um corpo neutro não eletrizado (por exemplo, outra bola de metal), este último também se tornara eletrizado, pois parte da carga elétrica do primeiro se transferirá para o segundo e assim por diante, constituindo-se entre eles uma corrente elétrica. Esses dois corpos estarão, assim, em sintonia.

Entretanto, se o segundo objeto (neutro) for representado por uma bola de vidro ou de borracha, essa comente elétrica não se estabelecera, pois não ha afinidade entre o vidro ou borracha para com o metal. Afinidade significa identidade de características. Assim também, um pensamento (e sentimento, como o ódio, por exemplo) emitidos por uma entidade, apenas conseguirá reproduzir-se em outra mente que lhe tenha afinidade, isto é, que tenha em seu conteúdo pensamentos e sentimentos com a mesma característica. Havendo afinidade, irá se estabelecer o circuito mental, ou, mediúnico; as duas mentes ficarão se alimentando reciplocamente dessa idéia, em identidade de sintonia (sin = concordância; tono = intensidade de ação). Afinidade e sintonia não são, portanto, termos sinônimos. Afinidade é uma premissa necessária para que se estabeleça a sintonia. O circuito mental é assim denominado por que a nossa mente é, ao mesmo tempo, uma estação emissora e receptora de pensamentos e idéias. Estamos, mesmo sem quere e inconscientemente, em sintonia com as outras mentes encarnadas ou desencarnadas com as quais temos afinidade. Nesse sentido o que podemos entender o que foi colocado em O Livro dos Médiuns, de Kardec, que “todos somos médiuns”, pois estamos sempre em contato mental e, portanto, mediúnico com outras mentes. Se temos bons pensamentos e sentimentos, temos condições de sermos inspirados pelos espíritos superiores que nos orientam e nos ajudam. Se estamos retidos em pensamentos e sentimentos negativos, abrimos brecha para a ação de espíritos perversos, vingativos etc, oferecendo oportunidade para a instalação do processo obsessivo.

Por tanto, o mecanismo intrínseco do estabelecimento do circuito mental ou mediúnico é o mesmo, tanto para as vibrações amorosas, quanto para as encontradas na vigência do processo obsessivo. Assim também acontece com outros atributos nossos. Seu uso depende de nosso livre-arbítrio. Nossas mãos podem acariciar mas, também, podem ferir; nossa voz pode confortar ou caluniar. Quando imaginamos o iluminado médium Chico Xavier em contato mental ou mediúnico com o seu mentor Emmanuel, podemos também imaginar que eles estão interagindo vibratória e fluidicamente, dentro do circuito mental que se estabeleceu entre eles.

A prece, a lembrança da figura terna de Jesus, a vivência de emoções sublimes, representam agentes de inducão de circuitos mentais de vibrações elevadas, assim como, cenas de violência, maledicência, impaciência, sentimentos de mágoa, culpa etc, representam agentes de indução de circuitos mentais de vibrações mais densas.

André Luiz nos esclarece que o complexo de culpa é um forte agente de inducão do processo obsessivo, representando um “gancho” através do qual os nossos obsessores nos atrelam ao seu comando. Em seu livro Libertação, André Luiz relata que um espírito, conhecendo o sentimento de culpa de determinada senhora, também desencarnada, começa a agredi-la com acusações, inclusive verbalizando: “Você não passa de uma loba, de uma loba, de uma loba…”. Desejosa de se auto-punir, a senhora aceita mentalmente a sugestão do obsessor, transmutando o seu perispírito na forma animalesca de uma loba.

MUDANÇA DE SINTONIA

Temos de nos lembrar da recomendação de Jesus: “amar ao próximo como a si mesmo”. Será que sabemos nos amar? Se não nos perdoarmos, como poderemos perdoar os nossos semelhantes? Se erramos, se cometemos atos impensados, vamos pedir a Deus que nos dê novas oportunidades para corrigir a nossa rota. Ficar retido no passado e dar oportunidade para que o sofrimento continue. Vamos olhar para o futuro e reparar nossas faltas com o trabalho edificante. Jesus sempre dizia: “Vai e não peques mais”, isto é , mude de sintonia!

Em Mecanismos da Mediunidade, de André Luiz, lemos que “o pensamento ou fluxo energético do espírito transmite-se segundo vários tipos de ondas: os raios super-ultra-curtos, em que se expressa a angelitude; as ondas longas (nas ações do cotidiano), médias (em oração, reflexão) e curtas (vivenciando emoções sublimes), em que se expressam a mente humana e as ondas fragmentárias, próprias dos animais. Entendendo que o pensamento ainda é matéria, a matéria mental, instrumento sutil da vontade, concluímos, pela responsabilidade de nosso livre-arbítrio, em manter a integridade de nossos pensamentos/sentimentos em sintonia ou paridade de freqüência com os nossos protetores ou, então, obsessores!

André Luiz ainda comenta, nesta mesma fonte, quer o espírito gera potencial de forças mento-eletro-magnéticas representando, as células do nosso cérebro, usinas microscópicas onde a matéria vital é processada e expressa”. As áreas psíquicas tem correspondência de atividade com várias regiões cerebrais, conforme assevera o autor assevera em No Mundo Maior. Assim, explica ele, tanto a nossa casa mental quanto o nosso cérebro podem ser apreciados como um castelo de três andares: no primeiro, que representa o porão de nossa individualidade, situamos a residência de nossos instintos e automatismos: e o arquivo de tudo o que aprendemos, o registro do nosso passado. Relaciona-se ao nosso inconsciente e tem a ver com a parte mais antiga e mais primitiva do nosso cérebro, o “cérebro primitivo” (região talâmica ou encefálica).

No segundo andar, localizamos o esforço, a vontade; é o domicilio das conquistas atuais, do presente, do consciente. Suas atividades são traduzidas pelo “cérebro sensitivo-motor” (áreas sensitivas e motoras do cortex cerebral).

Por fim, no terceiro andar, temos a casa das noções superiores, o ideal e a meta a serem atingidos, a ideação futura, o super-consciente. Relaciona-se particularmente as áreas do córtex do lobo frontal do cérebro, representando a parte mais nobre de nosso organismo em evolução. André Luiz segue comentando que o cérebro e o instrumento que traduz a mente, manancial de nossos pensamentos. Através dele, pois, unimo-nos à luz ou às trevas. Minghelli refere, na revista A Reencarnação, da Federeção Espírita do Rio Grande do Sul, que nos processos obsessivos que atingem funções mentais mais elevadas há uma espécie de ´desligamento” dessas atividades superiores. Quem assume o comando do corpo, então, são as áreas mais primárias e instintivas, que fazem o corpo executar automaticamente suas funções, independentemente da vontade, da razão e dos sentimentos, como nos casos obsessivos da subjugação.

Em nossa escalada evolutiva, neste planeta, desde as primeiras encarnações até os dias de hoje, o tamanho de nosso cérebro vem aumentando, principalmente nas regiões compromissadas com a transdução do terceiro andar de nossa casa mental. Concluímos, assim, que atualmente temos mais condições mentais e cerebrais de vivência das chamadas funções psíquicas superioras, da qual faz parte o livre-arbítrio.

A relação entre cérebro e mente explica a ocorrência das chamadas doenças psicossomaticas (psique = mente; soma = corpo). Os nossos estados mentais, sejam de alegria, confiança ou de magoa, ansiedade etc, influenciam as nossas funções orgânicas por intermédio dos centros de força (chakras). Por este mesmo mecanismo os processos obsessivos graves acabam acarretando repercussões negativas no corpo físico. Os obsediados graves ficam envolvidos e interpenetrados por fluidos deletérios, necessitando de auxilio de outras pessoas para a reversão do processo.

Aqui pode vir uma dupla pergunta: “Como pode, um médium evolvido, dar comunicação a um espírito de sintonia inferior, já que para se instalar o chamado circuito mental ou mediúnico e necessário que haja sintonia entre a mente emissora (do espírito comunicante) com a mente receptora (do médium)? Por outro lado, os fluidos deletérios do espírito não prejudicam o médium? Quem nos esclarece a respeito é novamente André Luiz, em seu livro Nos Domínios da Mediunidade, ao relatar um caso de psicofonia consciente o um de psicofonia inconsciente ou sonambúlica, em que a médium Celina, de Luminosa aureola, da acolhida a espírito comunicaste de lamentável condição. Celina, em trabalho caritativo, permite a aproximação do necessitado, qual a mãe que acolhe em seus braços o filho em sofrimento. As vibrações luminosas do perispírito de Celina, ao irradiarem, automaticamente repelem os fluidos deletérios do espírito comunicante. Preocupado, André Luiz indaga qual seria a situação de um médium que não tivesse a condição evolutiva de Celina. Nesse caso, esclarece o instrutor, os mentores se ocuparam de resguardar a condição do médium, uma vez que a figura do trabalhador e sempre merecedora dessa proteção.

Ainda em relação aos três andares da nossa casa mental, referidos por André Luiz, tomos interessante passagem que se encontra relatada, também por esse autor, no livro No Mundo Maior. Diz ele: “Examinamos aqui dois enfermos, um na carne, outro fora dela. Ambos trazem o cérebro intoxicado, sintonizando-se um com o outro (…) Odeiam-se reciprocamente (…) Desesperam-se em tormento e vingança (…)” André Luiz indaga seu mentor qual a razão de não socorrê-los com palavras de esclarecimento, ao que este responde: “Falaríamos em vão, André, pois ainda não sabemos amá-los corno filhos ou irmãos”. Mas o adequado atendimento não se faz tardar, pois logo chega Cipriana, portadora do Divino Amor fraternal. Estende as mãos sobre eles, atingindo-os com seu amoroso magnetismo, modificando-lhes o campo vibratório… Transmite a eles o ensinamento de que nunca é tarde para levantar o coração e curar a consciência ferida.

Vamos procurar entender o que aconteceu nesse caso que, acabamos de relatar. Relembrando os de ferentes tipos de onda em que se transmite o pensamento e o sentimento das criaturas, percebermos que os dois enfermos, dada a situação obsessiva em que se encontravam, mantinham-se envoltos e impregnados por uma densa camada de fluidos deletérios que somente as vibrações luminosas de Cipriana tinham condições de dissipar. A terapia do Amor! Cada um de nos faz o que pode, e é na persistência do trabalho que vamos burilando a nossa capacidade.

Kardec, em O Livro dos Médiuns, diz que “as imperfeições morais dão acesso aos obsessores e o meio mais seguro de nos livrarmos deles é atrair os bons espíritos pela prática do bem”.

A obsessão e impotente diante de espíritos redimidos! E o que é um espírito redimido? É aquele que reconhece as suas limitações e, como enunciado pelo apostolo Paulo, sente a alegria de saber -se “matriculado na escola do bem”.

E por falar em “terapia do amor” nos processos obsessivos, é imperativo que nos lembremos de Philippe Pinel, médico frances (1745-1826), um dos precursores da Psiquiatria Moderna, a qual se dedica sensibilizado pela tragédia de um amigo que, enlouquecido, foge para a floresta e é devorado por lobos. À frente dos serviços médicos do Hospício de Bicêtre, em Paris, a partir de 1795, revolucionou os métodos de tratamento dos doemos mentais. Mandou que fossem libertados os pacientes que, em alguns casos, se achavam acorrentados há 20 ou 30 anos! Proibiu a prática de tratamentos antigos como a sangria, vomitivos e purgantes, instituindo a bondade como conduta médica. Sua obra mais famosa é Tratamento Médica-Filosófico sobre Alienação Mental.

Que Jesus continue nos abençoando com oportunidades do trabalho e que os espíritos amigos nos ajudem a “abrir” nossa mente e coração para que possamos aproveitar bem as lições de cada dia!

DESOBSESSÃO NO CENTRO ESPÍRITA

O responsável pela direção dos trabalhos espirituais da Fraternidade Francisco de Assis, Humberto Pazian, relata como funciona o trabalho de desobsessão do centro.

“Realizamos o atendimento aos espíritos sem que o encarnado assistido esteja presente ou saiba que está sendo encaminhado à desobsessão. A ficha de cada um que passa pela consulta fica com o dirigente, que encaminha ao trabalho especifico, caso seja necessário.

O tratamento é feito dessa maneira na Fraternidade porque em uma outra casa que eu trabalhava, recebemos a orientação de que fosse desenvolvido dessa forma. Quando o grupo realiza a tarefa com dedicação, amor e responsabilidade, os resultados são muito bons. Esta metodologia do assistido não participar do atendimento de desobsessão foi indicada para o nosso tipo de trabalho; assim conseguimos atender muito mais pessoas em um espaço de tempo menor, sem com isso diminuir a qualidade.

Quando a pessoa compreende que além do esclarecimento aos espíritos que o atendimento proporciona, a melhora depende dela, os efeitos são rápidos e profundos. Talvez, se soubessem que estão passando pela desobsessão, muitos se acomodariam, achando que todos os problemas estariam resolvidos, quando na verdade precisamos vigiar bastante nossos pensamentos para que as nossas ações estejam de acordo com a moral espírita”.

 

(Extraído da Revista Cristã de Espiritismo nº 27, páginas 26-32)